Tábor e os Hussitas

É muito provável não haver na República Tcheca uma cidade mais misteriosa e perturbadora do que Tábor. O seu perfil, com vários monumentos e multicor, exibe edifícios renascentistas, com rica decoração.  Surpresas presentes também nos subterrâneos, que escondem um labirinto de túneis e adegas interconectados.

Por: Colaborador invitado

Publicado: Setembro 05, 2019

Localizada a 90 km ao Sul de Praga, Tábor ocupa uma colina solitária às margens do Rio Lužnice – fronteira entre a Áustria e a Tchéquia. Sua história está ligada aos enigmáticos hussitas, que a fundaram em 1420. Os líderes dessa seita religiosa associavam o lugar ao Monte Tábor bíblico, aonde, segundo o Evangelho, ocorreu a Transfiguração de Jesus. À época, os hussitas criaram em Tábor uma sociedade que pretendia ser perfeita, na qual não havia propriedade privada e qualquer hierarquia religiosa era rejeitada. Tal proposta logo foi extinta violentamente, contudo, por mais de trinta anos,  aquele povo do Sul da Boêmia foi o emblema e a inspiração da revolução  religiosa, política e social que apregoava. De alguma forma, a seita hussita ainda sobrevive em muitos recantos da República Checa.

Ainda hoje, a cada passo pelo centro histórico de Tábor é possível encontrar algum vestígio da  seita. Na Žižkovo náměstí, a praça principal, há monumento dedicado a Jan Žižka, o grande líder militar dos hussitas. Logo atrás, atrai atenção a esbelta torre do sino da Igreja da Transfiguração do Senhor no Monte Tábor. Embora restaurada ao final do século 19, esta igreja mantém muitos elementos originais de quando foi construída, entre 1440 a 1512. O mirante da igreja permite vistas extraordinárias de toda a cidade.

Do lado oposto à praça está a Stará Radnice, ou Antiga Prefeitura, prédio construído em meados do século 15. No seu interior tem destaque o Salão do Conselho, em estilo gótico, que abriga o Museu da Revolução Hussita. Neste prédio está a entrada principal da fascinante cidade subterrânea de Tábor, cheia de surpresas.

Mas, na verdade,  quem eram os hussitas? Sem dúvida, de todas as chamadas heresias e as  revoltas sociais do século 15, a seita hussita foi a que chegou mais longe, e a que melhor se sustentou no tempo. Para entender esse movimento, é útil conhecer a personalidade do seu fundador, Jan Hus. Ele foi um dos precursores do protestantismo, mas, antes de tudo,  uma figura com forte carisma que, do púlpito, lutou contra a corrupção da igreja oficial. Esta não foi a sua única luta. Ele batalhou para fortalecer a cultura tcheca frente ao poder germânico, à época, onipresente no país. Em 1415, durante o Concílio de Constanza, Jan Hus acabou preso a uma estaca e queimado. Logo, tornou-se um símbolo para o povo tcheco.

Monumento à Jan Hus há também em Praga, na Staroměstské náměstí – praça do centro histórico.  Foi erigido em 1915, poucos anos antes da proclamação da então República Checoslovaca, a 18 de outubro de 1918. Este fato fomentaria a nova Církev československá husitská (Igreja Hussita Tchecoslovaca), presidida por patriarca que se dizia neo-hussita. Esta igreja reúne preceitos católicos, ortodoxos e luteranos, todos eles imbuídos de sinais de identidade profundamente tchecos.

Há muitas igrejas neo-hussitas em toda Tchéquia, mas seus fiéis não chegam a duzentos mil, e estão, principalmente, em Tábor. Contudo, esta cidade da Boêmia do Sul desperta interesse que vai além da conexão com os hussitas. Os seus monumentos formam herança tão rica que atordoa.  Parte importante das defesas medievais está preservada, como a torre do Castelo de Kotnov. Durante setembro (em 2019, nos dias 13 a 15), a torre é palco de etapa do festival que recupera o espírito medieval, com torneios, feiras e desfiles. Trajada em estilos da época, a população em peso toma parte no festival.

Ainda, há que destacar em Tábor os vários monumentos em estilo renascentista boêmio. Alguns estão na Ulice Pražská, uma das ruas de acesso à praça principal. Entre eles, a Stark House, com fachada esgrafiada - arte em relevo, no caso, inspirada na natureza e na história. Outras obras-primas naquela rua: a bela Škoch House; a espetacular Casa Ctibor; e o Bechyňská brána, ou Portão Bechyně.

Mais informações: kudtznudy.cz

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