Conto premiado do Concurso Literário – Primeiro Lugar

O grande vencedor do Concurso Literário “Pense Algo Bonito, Sonhe com República Tcheca” foi esta obra divertida e envolvente de Ana Cristina Silva Abreu, que narra um encontro assustadoramente surpreendente de uma escritora a caminho de Karlovy Vary. Confira a íntegra.

Por: Colaborador Convidado

Publicado: Junho 22, 2020

Precisando de inspiração? Sua próxima parada é a República Tcheca!

Por Ana Cristina Silva Abreu

Devo começar este relato deixando bem claro que odeio clichês. Não é minha culpa se eles são uma constante em minha vida, entendam. Como escritora, tento fugir deles (não como o diabo da cruz, que fique claro), mas, há momentos em que é impossível escapar. Eu bem queria ter essa consciência naquela manhã de outono. 

Era outubro e as chuvas não deveriam estar castigando a E48 daquela forma. Bendita hora em que resolvi ir sozinha para Karlovy Vary! Pra não dizer outra coisa. Mas, o dia estava ensolarado em Praga, a viagem era curta, o lançamento do meu livro seria no dia seguinte pela manhã e o táxi que iria me levar naquela tarde acabou parado na oficina. Sim, eu poderia ter esperado o dia seguinte, encontrado outro motorista, pedido encarecidamente para a organização atrasar um pouco o início do evento, mas não. Em momentos assim eu lamento ser tão sistemática. 

Decidida a passar a noite em Karlovy Vary para ter tempo de vagar pelas ruas de contos de fadas, ouvir uma orquestra tocando valsa e aproveitar as águas termais, lá estava eu dirigindo um Peugeot 208 alugado, sozinha, dona de um extenso vocabulário em tcheco compreendendo coisas como dobrý den, ano, ne e pouco mais que isso, quando a tempestade caiu. 

Eu mal enxergava e o sinal do GPS, lógico, desapareceu. Com assim? Eu estava num dos países com a melhor internet do mundo! Clichês, meus caros, sempre eles. Já em Lubenec havia uma obra na pista e a chuva fazia com que a terra virasse lama. Diminui a velocidade, o que não impediu que o para-brisa fosse encoberto e, antes que os limpadores dessem conta da tarefa, devo ter confundido a sinalização e acabei virando à esquerda quando deveria ter seguido reto. 

Eu ainda não sabia, mas aquele desvio estragaria o lançamento do meu livro e a manhã de autógrafos no Grandhotel Pupp e me daria aquilo de que os escritores mais necessitam: uma história pra contar.

A chuva não dava trégua, mas eu seguia determinada. A estrada tornou-se sinuosa, algo estava errado. Parecia alguma via vicinal, mais estreita, menos povoada. Não havia casas que eu pudesse enxergar, ou lojas para me abrigar e segui por mais alguns quilômetros. Passei por uma pequena cidade e achei que estava na rota certa. Depois outra, e a chuva diminuiu. A esta altura eu já deveria ter chegado!

Só ao me aproximar da terceira cidadezinha, o tempo cedeu. Pšov? Nunca ouvi falar deste lugar! Mas, para uma brasileira, os nomes das cidades tchecas são uma tortura mesmo. Melhor seguir em frente. A noite vinha caindo e eu apenas me dei por vencida ao me aproximar de uma diminuta vila em meio às árvores. Definitivamente eu já deveria estar no hotel e não havia mais como negar: estava perdida. 

Lu-ko-vá… eu li lentamente na placa enquanto a chuva engrossava de novo. Passei diante de uma antiga casa que parecia vazia. Um pouco mais à frente havia uma igreja. Eu estava salva! Estacionei perto da casa de Deus e corri para a porta principal rezando para que estivesse aberta. E adivinhem? Não estava. Eu bati, cheia de esperança, mas não houve resposta. Então, decidi andar ao redor do prédio. Estava escuro, a pouca iluminação na vila não ajudava, mas percebi um vulto dentro do lugar. Forcei os olhos, parecia uma mulher sentada num dos bancos. 

Eu bati levemente contra a janela, mas ela não me notou. Bati mais forte e tentei chamá-la em inglês, gritei algumas palavras sem sentido em tcheco e, juro, tentei até em português. Vá saber, né? Nada. Provavelmente o barulho da chuva não permitiu que me ouvisse. Encontrei uma porta lateral e forcei-a um pouco. Portas antigas geralmente então emperradas e aquele lugar parecia estar caindo aos pedaços. Não custava tentar! E, só para somar à lista dos clichês do dia, a porta se abriu instantaneamente. Eu quase caí para frente pela inércia e fiquei parada por alguns segundos enquanto meus olhos se acostumavam com a penumbra entrecortada pelo fraco luar que entrava timidamente pelas grandes janelas. 

Quando meus olhos ficaram mais confortáveis, um calafrio subiu pela minha espinha. Havia algo ali, ao meu lado, imóvel. Acho até que podia sentir sua respiração, ou talvez fosse a minha mente assustada. Virei-me lentamente, minhas pupilas se dilatando. Uma pessoa? Coberta por um véu? Algo do tipo, eu não conseguia enxergar direito. Soltei um grito e corri pelo pequeno corredor lateral, tropeçando e apoiando-me nas divisórias dos grandes bancos de madeira.

O lugar não era grande, mas parecia grandioso. Ou fora um dia. A escuridão e a luz fraca do lado de fora, o barulho da chuva sobre o telhado castigado pela ação do tempo e o vento forte deixaram-me atordoada. Quem era aquela pessoa? Ou talvez eu apenas estivesse vendo coisas que não existiam. Escritores de ficção tendem a ser um tanto, digamos, imaginativos mesmo no dia-a-dia.

O pequeno corredor ligava a entrada lateral ao que parecia ser o corredor central da nave, a meio caminho do altar. Parei para recuperar o fôlego. Olhei para um banco à minha frente e, novamente, eu juro que havia alguém ali. Outra pessoa coberta num estranho véu, algo assim, sentada num silêncio aterrorizante. 

Tentei ser racional, talvez tivesse invadido a igreja em meio a alguma espécie de meditação coletiva, uma vigília. Mas, sem velas? Sem rezas? Ergui um pouco o olhar e notei mais figuras sentadas ao redor daquela. Girei sobre meus calcanhares e, nos bancos do outro lado alguns vultos também se distinguiam. Ninguém se mexia. 

Os sons do mundo lá fora e as imagens distorcidas pela penumbra interior me faziam ouvir estalos e gemidos. Corri na direção da outra porta, sem pensar muito. A estranha figura continuava parada na porta lateral, um pouco curvada para frente, e eu não conseguiria fugir por ali. Perto do que deveria ser a entrada principal, eu freei bruscamente, deslizando sobre o piso com minhas botas molhadas. Três outros seres em suas túnicas e com as cabeças cobertas impediram minha passagem.  Parados diante da porta fechada, inclinaram-se sobre mim, ameaçadores. Eles não precisavam, mesmo, dizer nada.

Instintivamente corri na direção oposta, desesperada, devo confessar. O altar, este sim, estava vazio. Antes de me aproximar mais, olhei pata trás. O que parecia ser um monge sentado na primeira fileira, olhava na minha direção. Com o pouco de coragem que me restava (e devo informar que coragem não é exatamente o meu forte), aproximei-me e tentei balbuciar um dobrý večer com a voz a menos trêmula possível. Não houve resposta. Cheguei mais perto para olhar bem seu rosto. Não devia ter feito isto! Meu coração acelerou ao mesmo tempo que um raio iluminou toda a nave e eu pude ver aquele... vazio. Sim, um vazio negro no que deveria ser um rosto humano. 

Ele me observava, sei que sim. Eu podia sentir sua respiração. O barulho do trovão me pôs alerta, eu caí sentada e me arrastei para trás. Meio em pé, meio de joelhos, subi os degraus e sentei-me, encolhida, lá no fundo. Não pode ser real, não é real! Estou sonhando. Era comum para mim ter sonhos lúcidos. Em algum momento eu percebia, por alguma imperícia da mente que contrariava a lógica, que estava num devaneio e me forçava a acordar. Naquele momento, segui a conhecida atitude dos sonhos e repeti a mim mesma que queria acordar, acordar já!

Mas eu estava em vigília, não havia dúvidas. Não iria acordar. Eu havia notado um cemitério lá fora, antes de entrar. Nada de anormal para uma igreja de interior. Mas aquela igreja tinha donos, isso sim. Deviam ser as pessoas enterradas lá fora. Eu havia perturbado seu descanso, eu havia profanado seu lugar santo! Na certa estava amaldiçoada e nunca conseguiria sair dali. 

Não sei quanto tempo passei sentada naquela posição, abraçando meus joelhos e tremendo de frio e de medo. Mas, eventualmente, o cansaço falou mais alto e adormeci. Sonhei com fantasmas encapuzados e sem rosto que me perseguiam e com mãos ocultas que seguravam meus braços e pernas e me impediam de escapar. 

Despertei com a luz de um lindo sol que invadia a igreja e uma voz gritando em numa língua ininteligível. Abri os olhos, assustada, e um homem alto e loiro apontava para mim e continuava gritando, tão surpreso quanto eu. Levantei-me num salto e corri para a porta, onde um outro homem, já com mais idade, segurou-me pelos braços enquanto falava num tcheco que não pude nem tentar entender. 

Como não parasse de me debater, ele me arrastou para fora e tentou seguir num inglês esforçado. Queria saber o que eu estava fazendo ali, como havia entrado, quem havia permitido. Meio sem jeito, narrei os fatos da noite anterior. A chuva, o desvio errado, como encontrei a vila e a igreja, como entrei e, principalmente, contei sobre as criaturas de além-túmulo que me cercaram e impediram minha fuga. 

Ele soltou uma gargalhada e largou meu braço. A família de turistas, àquela altura, achava o meu drama mais interessante e digno de fotos do que a igreja em si. Volte lá para dentro e veja por si mesma, orientou o destemido homem. Eu caminhei alguns passos lentos de volta à entrada, sob os olhares curiosos dos turistas e dos poucos moradores locais atraídos pela gritaria. Parei sob o umbral, respirei fundo e dei mais um passo. Estremeci.

Ao meu lado estava a tão assustadora criatura que me recepcionou na noite anterior. Eu a toquei com cuidado e recolhi rapidamente a mão. Era tecido e gesso, só isso. Avançando igreja adentro notei todas aquelas figuras sentadas nos bancos ou em pé no fundo, cada uma numa posição. Sozinhas, abraçadas, uma carregava um bebê. Eram todas esculturas de tecido e gesso.

O homem que era o zelador do lugar se aproximou e aproveitou para fazer as devidas apresentações. O senhor Petr trabalhava ali há anos, abrindo as portas para os turistas fotografarem e cuidando da exposição instalada por um professor e artista tcheco chamado Jakub desde 2012. A ideia era, segundo suas explicações, evidenciar o desapreço do povo pela vida religiosa, já que o país é um dos menos devotos do mundo atual, o abandono de igrejas como aquela, além de arrecadar fundos para sua restauração e manutenção. 

Os 32 fantasmas esculpidos delicadamente com materiais tão simples já não pareciam mais os algozes daquela noite chuvosa. Eram belas figuras, velando em paz por aquela igrejinha quase desconhecida. Sentei-me em um dos bancos, extasiada, e suspirei. Senti-me sortuda por ter descoberto aquele tesouro escondido. Tive tempo para observar a arquitetura, os detalhes entalhados em madeira, as colunas na entrada sustentando a ala superior, os janelões envidraçados, o humilde altar que havia me abrigado. Os turistas de língua desconhecida seguiram fotografando a instalação por algum tempo, fizeram uma generosa doação e partiram. 

O senhor Petr me disse para não ter pressa, mas evidentemente tinha mais o que fazer da vida do que ficar ali tomando conta de uma louca invasora. Busquei na carteira as únicas 500 coroas tchecas que tinha e entreguei para doação, meio sem jeito. Ele pareceu muito satisfeito e acompanhou-me até o carro. 

Antes de nos despedirmos, insistiu em saber como eu havia conseguido entrar, visto que ele estava certo de ter trancado a porta no dia anterior. Mas, estava aberta, eu insisti. Ele sacudiu a cabeça denotando ser impossível. Eu olhei para aquela construção mais uma vez, sem saber o que responder.  A velha Igreja de São Jorge (Kostel svatého Jiří) mantinha-se lutando contra a ação do tempo desde 1352. Por fora beirava a ruína, os tijolos aparentes com a pintura desaparecendo, as portas gastas e, bem no alto, insistente e até imponente, despontava o velho campanário. Por dentro, quantos segredos escondia? Quais mistérios permaneciam insondáveis? Seria arrogância minha acreditar que eu fazia parte de mais um deles? Ah, depois de uma noite tão intensa, eu tenho direito a um clichê, não?

No caminho para Karlovy Vary o sol brilhava e o GPS cumpriu seu papel. Dirigi sem pressa, pensativa. Meu editor ligava a cada cinco minutos perguntando como eu estava, onde eu estava, o que faríamos com a fila de leitores que aguardava por um autógrafo e pelo bate-papo com a autora em frente à entrada do hotel, à beira do rio Teplá. Acho que devo entretê-los com as histórias do 007, disse ele, referindo-se ao episódio Casino Royale filmado ali.

Enfim, sentenciei: Que 007 que nada! Diga-lhes que os fantasmas da Igreja de Luková me fizeram refém por uma noite, mas que eu já consegui escapar e mal posso esperar para contar tudo a eles. 

 

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